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O que são riscos psicossociais: definição, exemplos e como identificar

Risco psicossocial não é sobre o que a pessoa "tem", é sobre o que o trabalho está causando nela. Aqui a gente destrincha a definição, os principais tipos com exemplos reais e os sinais que avisam antes do afastamento.

11 de agosto de 2026· por Vanessa Custódio12 min de leitura
Profissional exausta diante do notebook, sinal de risco psicossocial no ambiente de trabalho

Riscos psicossociais são os fatores ligados à forma como o trabalho é organizado, gerido e vivido (metas, relações, liderança, comunicação, reconhecimento) que têm potencial de causar dano à saúde psicológica, física e social do trabalhador. Em outras palavras: não é sobre o que a pessoa "tem", é sobre o que o trabalho está causando nela.

Por que esse assunto saiu da roda de conversa do RH e virou pauta obrigatória? Porque a NR-1, atualizada pela Portaria MTE nº 1.419/2024 e em vigor desde 26 de maio de 2026, passou a exigir que as empresas identifiquem, avaliem e controlem esses riscos, do mesmo jeito que sempre fizeram com ruído, produto químico e máquina sem proteção. Não é mais uma escolha de empresa "bacana". É gestão de risco ocupacional.

Neste post, a gente vai por camadas: primeiro o que são esses riscos (e o que eles não são), depois os principais tipos com exemplos que eu vejo na prática, e por fim como começar a identificá-los na sua empresa. Vamos lá?

O que são riscos psicossociais?

Riscos psicossociais relacionados ao trabalho são os fatores presentes na concepção, na organização e na gestão do trabalho (como sobrecarga, assédio, falta de clareza de função, baixa autonomia e insegurança) que podem gerar efeitos negativos à saúde do trabalhador em nível psicológico, físico e social. Eles nascem da interação entre a pessoa e o jeito como o trabalho é organizado, não da pessoa isoladamente.

Agora, duas clarezas que evitam muita confusão.

Primeira: estamos falando de riscos psicossociais relacionados ao trabalho. Fica a dúvida se a empresa pode ser responsabilizada por tudo o que acontece na saúde mental das pessoas, e não é isso. Tudo o que estiver fora do campo do trabalho, a empresa não é obrigada a acompanhar. Se ela quiser fazer algo além disso, ótimo, é possível, mas o obrigatório é o que está diretamente relacionado ao trabalho.

Segunda: avaliar risco psicossocial não é verificar sintomas individuais, não tem nada a ver com exame biológico, com investigar o que cada pessoa está sentindo. A gente tem que olhar para o que o trabalho está causando: a forma como ele está organizado, o jeito de gestão, o jeito de trabalhar que pode ser estressor. Muita gente está fazendo essa confusão, e ter clareza disso muda todo o desenho da avaliação. A pessoa não é o problema; o foco é a organização do trabalho.

E isso não caiu do céu: a NR-1 está ancorada na NR-17, de ergonomia, e bebe da fonte das ISOs 45001 e 45003 (esta última, específica de gestão de riscos psicossociais, montada por especialistas). Ou seja: não é modismo, é um caminho que já vinha sendo pavimentado. Explico essa ancoragem, com os itens da norma, em como integrar NR-1 e NR-17 na prática.

Risco psicossocial x outros riscos ocupacionais

Para quem já vive de SST, o encaixe fica fácil: o risco psicossocial entrou no mesmo patamar de gestão dos riscos que a gente já conhece. Muda a natureza do agente, não muda a lógica.

  • Físico (ruído, calor, vibração): se manifesta como perda auditiva, fadiga.
  • Químico (poeiras, vapores, solventes): intoxicações, doenças respiratórias.
  • Biológico (vírus, bactérias, fungos): infecções, doenças.
  • Ergonômico (postura, esforço repetitivo): DORT, lesões.
  • Psicossocial (sobrecarga, assédio, baixa autonomia): estresse, ansiedade, esgotamento.

Repare no padrão que vale para todos: existe uma fonte com potencial de causar dano (o perigo) e existe o risco, que é a combinação de duas coisas: a probabilidade de esse dano acontecer e a gravidade dele se acontecer. É esse cruzamento de probabilidade e severidade que define o nível do risco. No psicossocial é igual: o que muda é que a fonte não está na máquina, está no jeito de trabalhar.

Os principais tipos de riscos psicossociais, com exemplos

Onde estão esses perigos? Em todas as organizações. E não tem problema eles aparecerem. O que não pode acontecer é não fazer nada. Vamos aos principais tipos.

Infográfico com oito exemplos de riscos psicossociais no trabalho: sobrecarga, baixa autonomia, assédio, violência, insegurança, liderança tóxica, falta de desconexão e falta de reconhecimento

1. Sobrecarga e excesso de demanda. Metas inatingíveis, jornadas estendidas, pausas impossíveis. Eu já participei de empresas em que a brincadeira era: "Fez a meta? Não atingiu? Dobra a meta, porque aí eles vão correr." E a pessoa olha e fala: "Impossível, essa meta é inatingível." Quando a gente atribui meta, tem que pensar: é compatível com o número de funcionários, com as condições, com o equipamento? Essa meta cabe? Aí sim a gente coloca. E tem o outro extremo da mesma moeda: a pessoa que sai meia-noite e às cinco da manhã tem que estar de volta, ou que não consegue nem ir ao banheiro durante o turno. Isso também não pode.

2. Baixa autonomia e falta de controle sobre o próprio trabalho. A pessoa não decide nada sobre como faz o que faz, a liderança faz microgestão de cada passo. Junto dela anda a baixa clareza de papel: a pessoa não sabe exatamente o que tem que fazer, fica confusa, insegura, ou é cobrada por algo que nem sabia que era responsabilidade dela.

3. Assédio moral e sexual. No assédio moral, tem uma palavra superimportante: exposição sistemática. Uma briga esporádica não caracteriza assédio; assédio é quando o xingamento, o grito, o isolamento proposital, a sobrecarga intencional acontecem sempre, sistematicamente. Já o assédio sexual é inadmissível, e as sanções precisam acontecer independente de quem seja a pessoa. Porque às vezes falam: "mas esse líder é tão importante para nós, se for ele a gente passa um pano". Não, não é este o caso. E olha: esse é um tema mais delicado, que merece um cuidado todo especial, então em outra postagem a gente vai explicar melhor como estruturar a prevenção ao assédio na sua empresa.

4. Violência e ameaças. "Se não terminar hoje, não precisa nem voltar amanhã." Isso é ameaça para botar medo, e a violência psicológica é a que mais ocorre justamente porque é a que mais dá para ser velada. Usar o cargo para intimidar, punir injustamente ou constranger é abuso de poder, coisa que a gente quase não vê no ambiente, né? Aquela frase antiga, "manda quem pode, obedece quem tem juízo", hoje é inaceitável, e caracteriza exatamente esse abuso.

5. Insegurança no emprego e mudanças mal comunicadas. Má gestão de mudança organizacional é fator de adoecimento reconhecido. Numa entrevista de diagnóstico, um diretor me descreveu a fusão que a empresa dele viveu: o grau de incerteza, o medo de perder o emprego, um clima nos corredores extremamente ruim, um querendo culpar o outro. Durou praticamente um ano e terminou com turnover de quase 80% da área administrativa. Foi bastante traumático, nas palavras dele mesmo.

6. Relações interpessoais e liderança tóxica. Mau relacionamento existe em toda empresa: o que a NR-1 pede é que a gente faça gestão disso. E tem coisa pior: a tal da gestão por conflito, em que o próprio dono coloca os líderes um contra o outro, "porque se eles estiverem bem, eles vão me trair". Isso é mais comum do que parece. Nas pesquisas, aliás, segue um padrão: "Como você se avalia?" "Estou ótima." "E os colegas?" "São bons." "E o seu líder?" "Meu líder é péssimo!" Só que, gente, em todas as empresas têm líderes com desenvolvimento ruim. Nosso trabalho é desenvolver esse líder, não expor.

7. Conflito trabalho-vida e falta de desconexão. Atenção: o "trabalho remoto e isolado" da norma não é sinônimo de home office. É a função em que a pessoa trabalha sozinha, numa sala fechada, longe de todo mundo. O home office entra por outra porta: eu, como cientista, fico me perguntando se certas voltas ao presencial são questão de produtividade ou só de controle. E aqui, equilíbrio: não é regra para todos. Uma fábrica não tem como, e tem gente que prefere voltar, super entendo. Mas já conversei com empresas em que é declaradamente controle, e se é mais barato, se a produtividade está boa, então não faz sentido. Aí vira abuso de poder.

8. Falta de reconhecimento e recompensa. Às vezes a empresa tem todos os benefícios que você pode imaginar, salário acima da média, e as pessoas não se sentem reconhecidas. Reconhecimento é sentimento de equilíbrio entre dar e receber: a pessoa pode ter o salário certo e o nome do cargo errado. Ela faz muito mais do que aquele cargo faria e sente o desequilíbrio. Isso não aparece na planilha de cargos; é na conversa que a gente vê.

E as consequências? Transtornos mentais, DORT, esgotamento, inclusive quadros como o burnout, que hoje tem CID próprio, e gera afastamento. Esse que é o ponto: perigo não tratado vira dano.

Como identificar riscos psicossociais na sua empresa

"Vanessa, mas como eu enxergo uma coisa tão subjetiva?" Olha só: antes do afastamento, o risco avisa. Eu sempre digo que, quando a gente trata o incidente, ele não vira acidente. No psicossocial é a mesma lógica: a pessoa que não ficou bem, o atestado por estresse, o comentário na rádio peão são incidentes nos avisando de possíveis acidentes.

Ilustração dos sinais indiretos de riscos psicossociais na empresa: atestados por CID, absenteísmo e rotatividade, processos trabalhistas e clima organizacional

Então, primeiro, os sinais indiretos:

Atestados e CIDs. Chegou atestado, planilha: de quem, qual data, qual CID. O CID é um termômetro do que está acontecendo. Muita gente com dor de cabeça? Qual setor? Todo mundo do setor X? Vamos lá ver o que está acontecendo.

Absenteísmo e rotatividade. Gente saindo, gente faltando, setor que não segura ninguém: são indicadores que precisam entrar na análise.

Processos trabalhistas: como indício, com parcimônia. Um ou outro processo pode não significar nada; agora, 20 processos e todos de hora extra, isso é um forte indício de que pode haver alguma coisa errada.

O clima que se respira. Uma vez fui convidada a visitar uma empresa maravilhosa, com RH maravilhoso. Mas, andando por lá, ninguém sorria, ninguém me olhava no rosto, não havia um cumprimento, nem comigo, que era visitante. A pessoa do RH tinha me dito que estava tudo ótimo, mas não era o que eu estava vendo e respirando naquele ambiente. Por isso a importância da visita: o discurso é uma coisa, o chão da empresa é outra.

Depois, os métodos. Aqui não existe ferramenta mágica: o mais interessante é fazer um mix de entrevistas individuais, pesquisa quantitativa, grupos focais e vistorias. O questionário serve para dar uma visão do todo, por isso não pode ser usado isolado. Toda ferramenta pode falhar; é a soma delas que vale. E não precisa de muito para começar: numa palestra, eu já pedi para as pessoas escreverem numa folha tudo o que estava incomodando em relação à empresa. Recolhi, coloquei numa caixa. Pronto, os incômodos estavam todos comigo. Aquela lista de incômodos já é levantamento.

Uma regra inegociável: anonimato. Se colocarmos algo que identifique as pessoas, é certeza que perderemos informações: o trabalho será inválido. Lutem por isso, mesmo que a empresa insista no contrário. E lembre: não é uma planilha que vai resolver a vida; é a sensibilidade e o discernimento de quem está conduzindo. Se quiser se aprofundar no passo a passo, veja como aplicar um diagnóstico psicossocial e interpretar os resultados.

O que a NR-1 exige sobre riscos psicossociais

Vamos amarrar com a norma. Com a atualização trazida pela Portaria MTE nº 1.419/2024, em vigor desde 26 de maio de 2026, a gestão de riscos psicossociais exigida pela NR-1 deixa de ser boa prática e vira obrigação: a empresa deve identificar os perigos, avaliar os riscos e controlá-los, dentro do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (o GRO aplicado aos riscos psicossociais), com tudo registrado no PGR.

Não é tendência passageira: em 2025 foram mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais e comportamentais no Brasil, segundo o Ministério da Previdência Social, recorde histórico.

Se você travou no "como", eu mostro como estruturar o GRO psicossocial passo a passo, da política de princípios ao plano de ação que sai do papel.

E avaliar não é listar por listar. É entender: qual a probabilidade de isso acontecer aqui? Com que frequência? Quando acontece, quão grave é? Uma falha de comunicação existe em toda empresa: numa situação pode não ser nada grave, em outra pode causar um problemão. Por isso a norma obriga a classificar os riscos e a provar que o plano de ação conversa com essa classificação. Isso amarra o processo e obriga as empresas a de fato fazerem o que precisa ser feito: nada de plano de ação de mentira, só para auditor ver.

Sabe aquela cena clássica dos laudos guardados na gaveta, "atualizados" só quando a fiscalização estava para chegar? Papel sem vida. O PGR é o contrário disso: um programa vivo, que se retroalimenta a cada ciclo. Programa, não documento. O que vai para o papel são o inventário de riscos e o plano de ação, que materializam essa gestão, mas o PGR em si tem começo e não tem fim: enquanto a empresa existir, ele continua rodando.

E esse ciclo tem regra: a avaliação de riscos deve ser revista no máximo a cada 2 anos, mas esse prazo é a exceção. Na vida real, você revisa antes: quando implementa uma medida e precisa reavaliar o risco residual, quando muda processo ou organização do trabalho, quando uma medida se mostra insuficiente, quando ocorre acidente ou doença relacionada ao trabalho, ou quando a legislação muda. (Empresas com sistema de gestão de SST certificado podem estender o prazo máximo para 3 anos.)

E um detalhe que não é detalhe: a NR-1 não pode ser uma imposição de cima para baixo. A participação dos trabalhadores faz parte do processo, do começo ao fim.

Perguntas frequentes sobre riscos psicossociais

O que são riscos psicossociais no trabalho?

São os fatores ligados à forma como o trabalho é organizado, gerido e vivido (metas, relações, liderança, comunicação, reconhecimento) com potencial de causar dano à saúde psicológica, física e social do trabalhador. Não é sobre o que a pessoa "tem": é sobre o que o trabalho está causando nela.

Quais são os exemplos mais comuns de riscos psicossociais?

Metas inalcançáveis e sobrecarga, assédio moral e sexual, falta de clareza sobre o papel, comunicação falha, ausência de reconhecimento, jornadas exaustivas e insegurança sobre o futuro do emprego. Na prática, cada empresa tem a sua combinação, por isso o mapeamento precisa olhar para a sua realidade.

Risco psicossocial é a mesma coisa que doença mental?

Não. O risco psicossocial é uma condição do trabalho; a doença mental é uma possível consequência. A NR-1 pede que a empresa gerencie a causa, o fator de risco, antes que ele vire atestado, afastamento ou turnover.

Como identificar riscos psicossociais na empresa?

Comece pelos sinais indiretos: atestados e CIDs, absenteísmo, rotatividade e processos trabalhistas. Depois, aplique um mix de métodos (pesquisa quantitativa, entrevistas, grupos focais e vistorias), sempre com anonimato garantido, senão as pessoas não falam.

A NR-1 obriga a avaliar riscos psicossociais?

Sim. Desde 26 de maio de 2026 (Portaria MTE nº 1.419/2024), identificar, avaliar e controlar riscos psicossociais faz parte do GRO, com registro no PGR. Deixou de ser boa prática: virou obrigação.

Quem deve fazer o levantamento de riscos psicossociais?

A responsabilidade é da empresa, normalmente conduzida por RH e SST em conjunto, com a participação dos trabalhadores do começo ao fim, que a norma exige. Apoio externo especializado ajuda, principalmente na garantia de anonimato.

Próximos passos

Amarramos uma ideia aqui? O caminho é: identificar os perigos que existem na sua realidade, diagnosticar com método (e anonimato), e gerenciar dentro do GRO/PGR, com plano de ação que sai do papel. Não existe o método "certo" que serve para todo mundo; existe o adaptado para o seu lugar. E não tem problema os riscos aparecerem. Nós somos humanos, imagina se fôssemos fazer essa análise na nossa família? Não teriam vários riscos? Sim, e tudo bem. O que não pode é não fazer nada.

A empresa que faz certo não precisa ter medo dessa norma: quem está mais preocupada é quem está infringindo. E o convite que eu deixo é este: tratar a saúde mental das pessoas com a mesma seriedade com que tratamos nossos produtos e serviços. Se você quer acelerar esse caminho com apoio, conheça a IA NR-1, treinada com a legislação vigente para apoiar o seu RH nas dúvidas do dia a dia. Faz o simples, mas faz, porque tudo que a gente cria que é difícil, a gente não faz.

E, quando for transformar o diagnóstico em documento, use o modelo de PGR psicossocial com exemplos práticos: ele mostra como preencher o inventário de riscos e o plano de ação campo a campo.

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