Como estruturar o GRO psicossocial passo a passo
A pergunta que mais escuto nas mentorias é: por onde eu começo? Aqui está a resposta: as 9 etapas que uso na prática para transformar a exigência da NR-1 em processo real, da política ao PGR.
Desde 26 de maio de 2026, a NR-1 exige que os riscos psicossociais entrem no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (o GRO) de toda empresa com empregados CLT (Portaria MTE nº 1.419/2024). A obrigação está de pé. O que está suspenso é a punição: o STF, na ADPF 1.316, suspendeu a eficácia sancionatória de cinco itens da norma até 23 de setembro de 2026. A janela para estruturar isso com calma está se fechando.
Nas minhas mentorias, a pergunta que mais escuto é: "Vanessa, por onde eu começo?". Este artigo é a resposta: as 9 etapas que uso para transformar a exigência da norma em processo real, e não em mais um documento de gaveta.
Resumo: o que você precisa saber agora
O GRO (Gerenciamento de Riscos Ocupacionais) é o processo contínuo de identificar, avaliar e controlar os riscos do trabalho, incluindo os psicossociais, por exigência da NR-1 (Portaria MTE nº 1.419/2024, em vigor desde 26/05/2026). Para estruturá-lo, siga 9 etapas: política, metodologia de identificação e avaliação, treinamento, comunicação, análise de acidentes e incidentes, plano de ação, monitoramento, melhoria contínua e PGR. O GRO é o processo; o PGR é o programa que o materializa em documentos: no mínimo, inventário de riscos e plano de ação.
O que é o GRO na prática
A NR-1 define o GRO como um processo contínuo e sistemático de identificação de perigos, avaliação e controle dos riscos ocupacionais da organização. E quando a norma diz que a empresa "deve implantar", não há escolha: é obrigatório.
Eu gosto de explicar assim: o GRO é o manual da sua gestão de riscos, o procedimento que conta como a empresa identifica, avalia, classifica e trata cada risco, com que critério, ferramenta e frequência. Por que escrever isso? Sem procedimento documentado, cada pessoa faz de um jeito e a empresa perde histórico. Com ele, trocou o consultor, trocou o funcionário: quem ficar segue o método.
Um ponto que muita gente erra: a norma não pede um GRO separado só para o psicossocial. Ela pede o contrário: riscos físicos, químicos, biológicos, de acidentes, ergonômicos e psicossociais no mesmo sistema. Se a empresa já tem levantamentos do técnico de segurança ou roda uma ISO 9001, aproveite tudo: o trabalho é integrar, não recomeçar do zero. Esse é o espírito da gestão de riscos psicossociais exigida pela NR-1: juntar os saberes num processo só. Se quiser ver essa integração item por item, escrevi sobre como integrar NR-1 e NR-17 na prática.
O contexto pede método já: foram 546 mil afastamentos por transtornos mentais no Brasil em 2025, segundo o Ministério da Previdência Social. Equipes desfalcadas, custo de reposição e turnover batendo no caixa todos os meses.
GRO × PGR: qual é a diferença?
Essa confusão trava muita gente. O GRO é o processo, a gestão em si, o jeito de fazer. O PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos) é o programa que materializa esse processo: um conjunto de ações coordenadas, contínuo, que se formaliza em documentos, no mínimo o inventário de riscos e o plano de ação.
O que é: GRO: Processo contínuo de gestão de riscos | PGR: Programa contínuo que materializa essa gestão
Função: GRO: Define método, critérios e responsabilidades | PGR: Coordena as ações de prevenção e as formaliza no inventário de riscos e no plano de ação
Formato: GRO: Procedimento escrito, o "manual" | PGR: Programa vivo, formalizado em documentos (planilha ou sistema)
Atualização: Revisto sempre que um risco muda, entra ou sai; a avaliação de riscos deve ser revista no máximo a cada 2 anos, ou 3 anos para empresas com sistema de gestão de SST certificado
Analogia: GRO: A receita | PGR: A cozinha funcionando; o inventário e o plano são os pratos que saem dela
Na prática: no GRO você escreve como avalia os riscos; no PGR você materializa quais riscos avaliou e o que vai fazer com cada um, por meio do inventário e do plano de ação. Um chama o outro, e os dois são vivos, sempre atualizados.
As 9 etapas para estruturar o GRO psicossocial
É a espinha dorsal do método que uso nas empresas. Siga na ordem.
1. Escreva a política de saúde e segurança
A política é a declaração de princípios e compromisso da empresa com o tema. A NR-1 não obriga a criar uma política, mas obriga a priorizar a vida e a integridade física e mental, cumprir a legislação e promover melhoria contínua. Eu empresto essa prática da ISO 45003, a norma internacional de gestão de riscos psicossociais, e recomendo começar declarando. Uma política curta, assinada pela direção, dizendo que a saúde mental do time é prioridade, que a empresa vai eliminar, reduzir e controlar riscos, e que vai agir prontamente diante de qualquer sinal. É o que dá lastro a tudo o que vem depois.
2. Defina a metodologia de identificação e avaliação de riscos
Aqui está o coração do GRO: onde você escreve, preto no branco, como a empresa identifica perigos e avalia riscos. O que precisa constar:
- Equipe: como se forma o grupo multidisciplinar (RH, SESMT, lideranças) e como as pessoas foram escolhidas.
- Mapeamento: a lista de todos os setores e processos, produtivos e administrativos, e como foi feita: visita presencial, mapas de processo, levantamento do RH.
- Identificação: o método usado para ouvir as pessoas: grupos focais, entrevistas, pesquisa de percepção. Se ainda tem dúvida sobre o que são riscos psicossociais, resolva isso antes de sair aplicando ferramenta. O passo a passo completo, com entrevistas, questionário e grupos focais, está em como aplicar um diagnóstico psicossocial.
- Avaliação e classificação: a ferramenta de avaliação escolhida pela empresa. A NR-1 não impõe uma ferramenta: eu uso a matriz de risco que cruza probabilidade e severidade, porque é simples e todo mundo entende. Pense na falha de comunicação: a probabilidade de acontecer é enorme em qualquer empresa, mas o impacto varia de quase nada até a demissão de alguém. A multiplicação das notas dos dois eixos gera a classificação: baixo, moderado, elevado, extremo.
- Documentação: onde os resultados são registrados, quem tem acesso e como ficam protegidos os relatos sensíveis: estresse, conflito, assédio.
A classificação existe para priorizar. É uma correção deliberada da norma: antes, as empresas listavam ações em laudos guardados na gaveta, sem priorizar nada. Agora o plano de ação precisa conversar com a classificação.
3. Estruture o treinamento dos trabalhadores
Repare que eu digo trabalhadores, não funcionários: a capacitação alcança todos os trabalhadores da empresa. E atenção com os terceiros: o treinamento deles é responsabilidade do empregador deles, mas cabe a você informar os riscos sob sua gestão e incluir essas pessoas nas suas ações de prevenção, inclusive visitantes e prestadores que circulam por áreas de risco. No GRO, você define os tipos de treinamento: na admissão (dentro da integração), periódico (a periodicidade é a que cada NR específica determinar; quando a norma não fixa prazo, quem define é a própria empresa, e isso precisa estar escrito no GRO), específico por função e eventual (quando muda um processo, alguém retorna de afastamento ou acontece algo grave).
Dois detalhes que quase todo mundo esquece: a norma exige certificado (conteúdo programático, carga horária, data, instrutor e assinatura do trabalhador) e o tempo de treinamento conta como hora trabalhada.
4. Planeje a comunicação interna
Todo esse trabalho precisa chegar às pessoas. No GRO, você escreve quais canais vai usar (murais, e-mail, diálogos diários de segurança, aplicativo) e com que rotina. Inclua como a empresa vai estimular a participação, porque no começo as pessoas têm medo de falar: escuta não acontece por decreto. E registre tudo: comunicados, artes e atas são a evidência numa fiscalização.
5. Crie a rotina de análise de acidentes e incidentes
Questões de saúde mental têm CID: burnout, estresse, ansiedade. Então um afastamento por transtorno mental é um acidente de trabalho; e o sinal anterior (a pessoa que não está bem, o atestado curto, a reclamação recorrente) é um incidente. Eu sempre digo: o incidente é um aviso. Quando a gente trata o incidente, ele não vira acidente.
No GRO, descreva a tratativa: comunicação imediata (pode ser anônima, pelo canal de denúncias), registro detalhado do relato (sem julgamento, só fatos), investigação, reavaliação do risco na matriz e relatório com proposta de ação. Como montar esse canal está em ouvidoria interna: como implementar em 9 passos.
6. Estabeleça as diretrizes do plano de ação
Aqui o GRO define como os planos de ação são criados: riscos altos entram primeiro, e as medidas coletivas (revisão de metas, prevenção de assédio, orientação de liderança, campanhas) têm preferência sobre as individuais, como atendimento psicológico e treinamentos específicos. A regra de ouro: cada ação precisa ser coerente com o risco levantado. Não adianta oferecer ginástica laboral para um problema de sobrecarga de metas. O detalhamento (responsáveis, prazos, recursos) vai para o PGR; no GRO fica a diretriz.
7. Defina o monitoramento e os indicadores
Escolha seus indicadores: afastamentos e atestados por CID, absenteísmo, volume de denúncias, resultados dos questionários de percepção. Uma sugestão: faça o diagnóstico completo uma vez por ano e rode pesquisas curtas de percepção ao longo do ano, para monitorar a temperatura sem esperar o problema crescer. E lembre: indicador fora da meta gera plano de ação; medir sem agir é enfeite.
8. Garanta a revisão e a melhoria contínua
A melhoria contínua é requisito da NR-1, não é boa vontade. Preveja no GRO uma revisão periódica de todo o processo. A norma exige rever a avaliação de riscos no máximo a cada 2 anos (ou 3, para empresas com sistema de gestão de SST certificado); eu recomendo fazer anualmente, porque esperar 2 anos é muito tempo para risco psicossocial. E preveja revisão extraordinária sempre que houver acidente, mudança de processo ou risco novo: são gatilhos da própria norma. Incorpore as lições aprendidas: o que deu certo retroalimenta o sistema. E abra espaço para os colaboradores proporem melhorias: a participação deles é obrigatória pela norma.
9. Materialize tudo no PGR
O GRO desemboca no PGR: o programa que materializa tudo isso em documentos, no mínimo o inventário de riscos e o plano de ação, que precisam ficar disponíveis e atualizados. É o produto final, e o que o auditor fiscal vai pedir primeiro. O preenchimento é assunto para um artigo inteiro: veja o modelo de PGR psicossocial e como preencher.
Nota da autora: numa indústria que acompanhei, o RH queria criar tudo do zero. Quando pedi o PGR existente e os procedimentos da qualidade, descobrimos que 70% do caminho já estava andado: faltava incluir o psicossocial. O papel do RH é de integrador: chamar a segurança, a qualidade, a medicina do trabalho e costurar tudo num sistema só. Ninguém faz essa costura melhor que o RH.
FAQ: Perguntas frequentes sobre o GRO psicossocial
O que é GRO na NR-1?
É o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais: o processo contínuo e sistemático de identificar perigos, avaliar e controlar os riscos do trabalho (físicos, químicos, biológicos, de acidentes, ergonômicos e, desde a Portaria MTE nº 1.419/2024, também os psicossociais).
Qual é a diferença entre GRO e PGR?
O GRO é o processo de gestão, o método, o 'como fazer'. O PGR é o programa que materializa esse processo em documentos: no mínimo, o inventário de riscos e o plano de ação. Não existe PGR consistente sem GRO estruturado por trás.
O GRO psicossocial é obrigatório para todas as empresas?
Toda empresa com empregados CLT deve gerenciar riscos ocupacionais, incluindo os psicossociais. A exigência está em vigor desde 26/05/2026. Uma liminar do STF suspendeu a eficácia sancionatória de cinco itens da NR-1 até 23/09/2026, o que suspende a multa, não a obrigação. O alcance dessa suspensão está explicado em multa da NR-1: o que o STF suspendeu.
MEI e microempresa precisam elaborar PGR?
O MEI é sempre dispensado de elaborar o PGR. Microempresas e empresas de pequeno porte de graus de risco 1 e 2 também ficam dispensadas, desde que o levantamento preliminar de perigos não identifique exposição a agentes físicos, químicos e biológicos e que elas declarem essas informações no sistema digital do governo (disponível em pgr.trabalho.gov.br). Atenção: a dispensa é só da elaboração. Quem é dispensado de elaborar o PGR continua obrigado a gerenciar os riscos ocupacionais existentes.
Preciso criar um GRO separado só para riscos psicossociais?
Não, e a norma orienta o contrário. O psicossocial entra no mesmo sistema de gestão dos demais riscos. Se a empresa já tem levantamentos de segurança ou certificação ISO, o caminho é integrar, não duplicar.
Quem deve elaborar o GRO psicossocial?
É um trabalho multidisciplinar: o técnico de segurança cuida das avaliações técnicas, e o RH atua como integrador, articulando segurança, qualidade, medicina do trabalho e lideranças num processo único, com participação dos trabalhadores.
Com que frequência o GRO deve ser revisado?
A avaliação de riscos é um processo contínuo e deve ser revista sempre que algo mudar: acidente ou doença relacionada ao trabalho, mudança de processo ou tecnologia, medida de prevenção que se mostrou ineficaz, novo requisito legal ou implementação de medidas (para avaliar o risco residual). Se nada disso acontecer, o prazo máximo é de 2 anos (ou 3, para empresas com sistema de gestão de SST certificado). Na prática, esperar o prazo máximo é exceção: GRO parado no tempo vira documento de gaveta.
Posso usar inteligência artificial para escrever o GRO?
Como apoio de redação, sim. Mas a IA não conhece a realidade da sua empresa: o conteúdo precisa refletir o levantamento real, o método real, as decisões reais. A norma não aceita mais cópia e cola, e isso vale também para texto gerado por IA sem revisão.
Próximos passos
Estruturar o GRO psicossocial é um caminho executável, e você não precisa trilhá-lo sozinho. Para tirar dúvidas sobre a norma na realidade da sua empresa, converse com a minha assistente de IA especializada em NR-1. Se preferir apoio direto na implementação, fale comigo por aqui.
Sobre a Autora
Vanessa Custódio é Doutora em Gestão Humana e Social e mentora de RHs e profissionais de SST na implementação da NR-1. Há mais de 20 anos implanta sistemas de gestão em empresas de diversos portes, unindo método, escuta e cuidado com pessoas.



